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13 Reasons Why: O que os pais precisam saber

A série 13 Reasons Why causou polêmica do seu começo ao fim. Milhares de pessoas e resenhistas ficaram chocados com a dura realidade que a série nos traz. No entendimento de nós, psicólogos, a série romantiza e enaltece o suicídio, mas como não somos críticos, vamos nos atentar a prover uma análise através da psicologia transpessoal para história que a série narra.

Hannah é uma garota que passa pelas crises consideradas normais da adolescência. Tudo o que ela passa no início da série é recorrente das transformações que essa fase da vida nos acarreta. Hannah enfrenta as dores que qualquer um de nós enfrentou nesse período. No entanto ela passa por algumas situações e traumas que fogem do seu controle emocional e do controle do seu ser, como o bullying, assédio/abuso sexual e principalmente a passividade dos pais em relação ao que acontece na vida de Hannah.

Quando estamos nessa fase de desenvolvimento, a adolescência, o nosso maior desejo é ser aceito pelo outro. É apenas isso que Hannah busca… ser aceita pelo seu grupo de amigos e pelo garoto do qual ela acredita estar apaixonada. Simplesmente ser aceita pelo mundo. Embora ela seja dona de uma personalidade incrível, Hannah ainda assim acredita que precisa ser aceita e não banca o ser especial que ela é, em sua totalidade. Essa necessidade de ser aceito pelo outro se dá, pois em nossa sociedade há aquilo considerado normal e aquilo considerado fora da normalidade. A “normose” ou “normopatia” é um conceito da filosofia para se referir a normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser esgotantes, pois a todo momento o ser humano, como um todo, busca entrar nessa “normose”. E essa busca se intensifica na adolescência para todos nós.

Porque isso ocorre? Justamente porque ela mesma não se aceita. Ela não consegue compreender que ela deveria se sentir completa por si só. Ela não se banca nesse ser… ela se preocupa mais com a visão que o outro mantém em relação a ela, do que simplesmente aceitar o seu ser. Em contrapartida temos Clay, o personagem mais tímido e contido da série. Ele sim se aceita e em todo o seu íntimo. Embora ele se sinta responsável (e talvez realmente seja uma das 13 razões do porque de Hannah) pela morte de sua colega, ele aceita isso e passa por cima de tudo com a ajuda de Tony.

Mas o que é a aceitação?

Aceitação é simplesmente olhar o mundo a sua volta, olhar as dores, limitações, desafios e aceitar que aquilo pertence a você, que aquilo é o que você é. Quando você passa a não se aceitar, você entra em choque com aquilo que você tem de melhor… que é a sua mente, que é você mesmo. Se você se aceita, você abre um processo muito importante de se relacionar consigo mesmo de uma forma melhor e consequentemente com os outros. Os julgamentos alheios perdem força se você se aceita da forma que é. E é justamente isso que não acontece com Hannah. Os julgamentos alheios tem mais força do que nunca e são causadores de dor e sofrimento apenas porque Hannah acolhe esses julgamentos. E não para por aí… ela se auto julga e é aí que a intensidade da autoflagelação ganha força e o ser humano (Hannah nesse caso) distorce a sua própria imagem, para si mesmo. E é aí que Hannah se torna um estranha para ela mesma.

Com a sua imagem deturpada para si mesma e a imagem que o outro tem dela, Hannah se perde e então se causa um grande impacto emocional que dá caráter à depressão que ela passa a sentir. A melancolia, a sensação de estranheza, vazio e falta de amigos. Já Clay, que é tão cheio de si mesmo sem chamar atenção para isso, sofre de ansiedade. E aí vemos mais uma diferença grande dos dois personagens. Hannah vive a sua melancolia e Clay vive a sua agitação e os dois funcionam como um alicerce um para o outro, em uma viva história de amor… cheia de pieguices. Esse é o único momento da série na qual, em minha opinião, se é possível dar um sorriso. Mas isso não dura nem 5 minutos.

Quando Hannah passa a querer um novo começo, é como se ela desse indícios de que iria se auto aceitar, mas no entanto, em mais uma tentativa de ser aceita pelo outro ao ir em uma festa tarde da noite e participar do mundo que ela julga ideal, ela passa pelo maior trauma da sua vida. Em uma cena que é chocante, mas que traz sim a realidade do que é o abuso sexual, nós testemunhamos a cisão que Hannah faz entre a vida e o desejo de morte.
Nós já sabemos o que acontece no fim da série. E isso é o que a maioria dos adolescentes passam, essa busca de aceitação do outro, onde de fato, quem deveria se aceitar são eles mesmos. Mas porque tudo isso ocorre na série? Ao meu ver todas as pressões que Hannah passa até a cena em que ela é violentada pelo seu colega são típicas de um adolescente que se difere e não é aceito do grupo, mas o fato de ela ter sido estuprada é o estopim. Mas há algo além disso… a alienação dos pais de Hannah, que estão mergulhados em seus próprios problemas e anseios (problemas financeiros), que são a cereja do bolo para a morte de Hannah. Os pais dela não viram nenhum sinal de que a garota estava em sofrimento.

É muito importante gerar uma janela de diálogo entre pais e filhos, pois a depressão nessa fase da vida é muito comum. De acordo com um relatório divulgado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), a depressão é o principal problema de saúde entre os adolescentes, fator diretamente relacionado ao suicídio. É papel dos pais ficar ligado nos principais sinais de depressão que acometem os jovens. Muitas vezes a depressão é silenciosa e é custoso de identificar o seu processo, mas é importante exercitar esse olhar aos filhos. A Associação Americana de Psiquiatria determina que, para ser detectada com depressão, o adolescente deve apresentar pelo menos cinco sintomas do transtorno. Entre eles, um deve ser obrigatoriamente o humor deprimido (tristeza, desânimo e pensamentos negativos) ou a perda de interesse por coisas que antes eram prazerosas ao paciente. Os outros sintomas podem incluir alterações no sono, no apetite ou no peso, cansaço e falta de concentração.

No entanto, a depressão é subjetiva a cada um e deve ser olhada com cuidado e amorosamente. Embora a série trate tudo com um caráter romântico, ela abre espaço para que essa conversa sobre o suicídio e depressão ocorrem com mais facilidade dentro dos lares. Por fim, podemos dizer que os pais são os culpados que não tem culpa… até hoje, pois a maioria de todos vocês possui subsídios o suficiente para dialogar com seus filhos sobre as dores do que é ser adolescente.

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